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abr 16, 2021

DIVAGAÇÕES SOBRE QUEM E COMO SOMOS


A memória é curta, diz-se (lembra-se).

Nada é garantido, ouve-se dizer.

Ninguém se lembra, ninguém ouve.

Na verdade, só ouvimos o que queremos, o que nos convém.

Vem isto a propósito do dito e ouvido problema dos Direitos Humanos. Nunca se falou tanto deles: nunca se ouviu tanta sabedoria, tanta defesa. Nunca eles foram tão violados…Não é verdade! A verdade é nunca se soube tanto acerca da sua violação o que, parecendo mau, é bom. Lemos jornais (poucos), atiram-nos noticias pela televisão e pela internet (quase sempre só as más, as mais vendáveis). Fazem-se abaixo assinados.

Todos defendemos os direitos humanos mas, verdadeiramente, nada fazemos para os defender. Porque não podemos, porque vivemos no melhor dos mundos, porque andamos na nossa vidinha. É normal. Ainda por cima, tal violação é sempre dos direitos “dos outros”, “eles”. Moçambicanos, Sudaneses, Guineenses, Sírios, Afegãos. Eles, os outros, os que aparecem nas notícias e que vemos morrerem enquanto mastigamos um bife e exclamamos “que horror”. A minha geração e as atuais nunca o sentiram na pele porque vivemos numa época (que começou na minha vida) em que o mundo começou a viver melhor do que nunca. O que ninguém sabe é que nunca tanta gente viveu tão bem como agora, havendo, claro, muita gente a viver muito mal. Mas tudo é relativo, tudo tem de ser visto no tempo e lugar certos.

Voltando ao melhor dos mundos, o nosso. Ninguém vive tão bem, com tanta proteção, com tanto direito garantido, com uma cidadão da U.E.. Ninguém. E todos dizem mal de tudo, todos criticam, todos sabem opinar, todos são bons treinadores – e por extensão, políticos - de bancada. Mas não sabemos do que falamos. Só olhamos para o umbigo. Olhamos de esguelha para os que nos governam e que “não fazem nada” e esquecemo-nos do país que somos e do país que eramos comparado com o país que somos, dizendo coisas ridículas como “antigamente é que era bom”. Chamá-lo pobre, dizê-lo mau é um insulto para milhões de pessoas. Dizer mal da U.E. é não ter a noção do que são tragédias. As nossas desgraças, são tragédias de “rico”. As nossas pandemias, são, para muitos, doenças de quem as pode ter. A grande maioria das pessoas do mundo não têm “tempo” para se preocupar com as desgraças de quem tem hospitais cheios. Porque não têm hospitais. Querem é dar de comer aos filhos, para que os filhos cresçam, sejam felizes e vivam melhor do que viveram os pais, se possível.

As voltas da conversa, como e com todas as contradições que o mundo tem, levam-nos aos Refugiados que, na sua esmagadora maioria, são pessoas que querem ser felizes e fugiram de quem os não deixa sê-lo. Fugiram para onde? Para onde vivemos nós, pois então, o melhor dos mundos. O mundo dos direitos que todos temos por garantidos e não queremos perder. Por isso mesmo, entendemos que temos o direito e o dever de os defender, mesmo que isso signifique negá-los a quem os não tem e os quer ter. A Europa aceita muitos refugiados, é verdade, mas maior verdade é o mal que faz aos que não aceita, pagando a turcos para os travar e manter afastados, para que não nos incomodem.

É verdade que não podem vir todos, claro que não, mas pagar para não nos chatearem é hipocrisia. No meio de muitos (“eles”) haverá potenciais “terroristas”? Talvez. É um risco. Vieram e virão oportunistas, mas em número tão insignificante que não nos dá o direito de generalizar. Não há criminosos entre os “nossos”? Há, mas são dos nossos e não “eles”. O mundo não se resolve tapando os olhos. Dizer mal de tudo é sinal de ignorância e a ignorância é a principal razão do medo.

Relativizando e contextualizando, razão pela qual é um disparate “deitar estátuas abaixo”, termino falando da primeira grande organização internacional do mundo civilizado, o Império Romano. Porquê? Primeiro, porque – estamos na na Antiguidade!! - foi um espaço de tolerância, de aceitação de culturas, de religiões, de partilha de conhecimento, de desenvolvimento. Depois, porque nos deu a base daquilo que é hoje a nossa civilização, das línguas que mais se falam em dois continentes (não vamos agora pensar porque é que se falam … isso é História, são outros contextos), das leis que nos governam. Quando acabou, entrámos na Idade Média de 1000 anos. Porque acabou, melhor, como começou o seu fim? Para além das crises internas… como uma crise dos refugiados! “Bárbaros” (Godos) a fugir de outros “bárbaros” (Hunos), pediram ajuda aos Romanos. Foram mal tratados, revoltaram-se e…. deu no que deu.

Nada é adquirido. Nada dura para sempre. Um direito que se julga adquirido, rapidamente se pode tornar num direito perdido e, quando damos conta, pode já ser tarde. Quanta vezes já lemos ou ouvimos estas verdades?

Escrito de uma penada e sem correções em Viseu, no dia 31 de Março do ano de 2021. (parecendo uma simples data, não é.)