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mar 26, 2021

O Zé do Chicote


Foi dos melhores professores que tive, o Zé do Chicote, toda a gente tinha medo dele, até porque a história do chicote é real; ele andava sempre com um! Os primeiros tempos não foram fáceis, os primeiros contactos nas primeiras aulas (não do chicote, mas do Zé!) deram-lhe a fama que “duramente” granjeou, mas, com o tempo e à medida que se conquistava a sua confiança, todos podiam ver desvendada a grandiosidade do homem.

Do Zé tenho muitas histórias, duas guardo com um imensurável carinho e admiração. Uma delas, depois de um jantar num restaurante na zona de São Vítor, por acaso bem regado com um bom verde (alvarinho, como não podia deixar de ser, no Minho - em Roma sê…) encontramo-nos, por mero acaso, no insólito (bar de belas e famosas tertúlias). Após alguns dedos de conversa acerca de liderança e poder, e ao som de Chocolate Jesus de Tom Waits, seguido de Saved de Bob Dylan, de deu-me um KO de argumentação onde, resumidamente, disse:

- Rapaz, se te interessa ver o caráter de alguém, dá-lhe poder. Coloca um chicote na mão de alguém e vê como ele exerce o poder sobre os outros. O modo como alguém exerce o poder mostra o seu “sangue”, a sua marca, a sua capacidade de ser compreensivo, de ser benevolente, de ser pedagogo, até de saber amar.

Nesse momento aprendi que, quase sempre (!), as melhores «chicotadas» não são dadas com o chicote!

A outra história do Zé Chicote foi com um miúdo muito amigo do alheio, até parecia que tinha cola nas mãos. Este miúdo, num belo dia, roubou um relógio numa aula; foi uma situação que causou muito alvoroço, mas que terminou em águas de bacalhau; o que mais me impressionou foi o seguinte: Recentemente encontrei o, já velhote, Zé num banco de jardim junto ao lago da Arcada e meti conversa perguntando se ainda me conhecia. Passado pouco tempo, e algum diálogo, avivaram-se as memórias. Depois de uma amena cavaqueira, por entre assuntos de circunstância, perguntei-lhe acerca da história do relógio roubado e ele sorriu; disse-me que se lembrava muito bem “Como se fosse ontem.”, só não se lembrava de quem tinha sido o ladrão.

- Então, lembra-se da situação e não se lembra de quem roubou? – perguntei.

Ele, relatando a situação, disse:

- O desaparecimento do relógio foi na minha aula, senti-me naturalmente na obrigação de procurar resolver o problema sem recorrer a ninguém e, de preferência, sem denegrir a honra que restava do usurpador com uma boa lição. A turma era só de rapazolas e, no sentido de resolver a situação, sugeri colocarem-se lado a lado, pois iria ver os bolsos de todos, mas, para salvar a dignidade do visado, iria colocar uma venda em todos. Todos concordaram, assim fiz e o relógio apareceu.

- Então - disse eu - dado o impacto da situação, não se lembra de quem roubou o relógio?

O Zé, com um sorriso amistoso, e com o peso dos seus 80 disse:

- Na altura de fazer a revista aos bolsos, também coloquei uma venda nos meus olhos. Talvez o Zé já se tenha finado, mas continuo a ter saudades do Professor…

Nota: Toda a história é fictícia à exceção do bar, da música e do vinho!