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fev 19, 2021

X Morreu


X morreu, viva o X, (qual D. Dinis!) quem morreu foi um professor; mãe e pai de todos os ofícios. O toque do sino não engana e dobra a finados. Foi num belo dia de tranquilidade solarenga, a chuva tinha dado tréguas e havia uma fila de sonhadores a comprar a Bola e a jogar no Euromilhões. Ouve-se perguntar por um transeunte: - Quem finou? 


Com uma voz rouca, a pele já muito gasta pela dureza da idade e uma evidente tristeza no olhar, o ti Sagaz respondeu: - Foi o professor… 

Em dois dias, o Covid roubou-lhe o ar dos pulmões e fê-lo largar sangue e dejetos no corredor do hospital, junto a outro cadáver. A marinha seguiu e a fanfarra continuou a tocar. 


Nos dias que correm, fruto da pressa com que se vive e de olhar para tudo em função da sua utilidade, existe a tendência de se olhar para tudo e para todos como um meio para…, para atingir algo, um fim, e não se olha como um fim em si mesmo. As pessoas, muitas vezes “gostam” umas das outras apenas em função da sua utilidade. Gostam da utilidade que têm e apreciam-nas enquanto são úteis; deixando de ser úteis e de servir para alguma coisa, “perdem” o seu valor.


Qualquer pessoa enquanto «funcionário», enquanto alguém que exerce uma «função», enquanto profissional, é substituível. Qualquer operário é substituível por outro operário; já enquanto pessoa, aí a conversa é totalmente diferente. Nenhuma pessoa substituí outra pessoa. Assim, quanto à função, existem bons e maus pais, bons e maus alunos, bons e maus professores e, destes três, apenas os últimos são substituíveis.

Mesmo que, em algumas situações, o trabalho do professor seja dar pérolas a varas, basta acreditar que se vai melhorar a vida de, pelo menos um, para valer a pena olhar para a tela do Meet. Acreditar que, não todos mas alguns d`”Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” – Antoine de Saint-Exupéry.

Mais do que ensinar o que se sabe (e por antes de ser professor ser pessoa), o professor ensina o que é. É inegável que, quando alguém escolhe, escolhe-se; quando alguém fala, fala-se; uma pessoa diz muito de si quando fala dos outros. A elegância ou deselegância com que tratamos alguém ou quando nos referimos a alguém, sobretudo quando não precisamos dela e não nos é útil, mostra o nosso caráter.

É urgente a bondade, a tolerância; é urgente encontrar novos caminhos, novas formas de partilharmos coisas boas. É urgente o amor e o primado residirá sempre na palavra. Numa época de confinamentos e “saboreando” um pouco de Pessoa, “liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”… mas é tão bom ser escravo de quem apreciamos… Bem, dito isto, e após ler um pouco de Carl Rogers, vou continuar a ouvir “Wish You Were Here”, dos Pink Floyd, em memória do professor e terminar o copo de vinho alentejano (pois o que é bom deve ser saboreado lentamente!)

Por fim, termino dizendo que, no sorteio do Euromilhões, ninguém ganhou, todos perderam.


19.fevereiro.2021

O Professor,

Antero Gonçalves